O Som da
Palavra e a Palavra do Som
Rael Toffolo
A relação entre texto e música é intrigante a ponto de permitir que outra
história da música, quiçá também da poesia – fato ao qual não me arrisco a
fazer por ser apenas um músico –, poderia ser escrita ao focá-la. Na Grécia
antiga, a dimensão poética e a musical se confundiam praticamente em um único
conceito, pois não havia poesia sem a musicalidade intrínseca do perfil
prosódico e não poderia haver música sem a presença da semântica textual. A
proposta de Platão em expulsar o flautista de seu modelo de República
assenta-se nessa premissa, já que o flautista, que precisava manter a boca
ocupada com o instrumento, não poderia cantar a palavra, eliminando a expressão
da Razão de sua prática artística.
Durante a Idade Média, Renascimento e Barroco, a música foi geralmente erigida
a partir das relações discursivas oriundas da retórica textual. Diversas convenções
foram estabelecidas para reproduzir em música as nuances retóricas do texto,
resultando em tabelas complicadíssimas de figuras de retórica que codificavam a
relação texto/música. Destacam-se aqui compositores como Orazzio Vecchi, Lucca
Marenzio, Girolamo Frescobaldi, ou o Magistral Claudio Monteverdi, em especial
em seus madrigais Zefiro Torna e Lamento della Ninfa, ambos com
poesia de Ottavio Rinuccini.
Com o apogeu do Iluminismo, assistimos ao divórcio do texto e música. Não
se aceitavam relacionamentos construídos a partir de simbolismos, portanto que
não fossem claros, simples e diretos. O romantismo musical resgata pouco a
pouco os intercruzamentos entre texto e música, mas jamais no mesmo nível de
complexidade que o da renascença e do alto barroco. No século XX, a música
abandona paulatinamente o mundo cartesiano da altura definida e do tempo cronométrico,
alcançado a continuidade e o fluxo dinâmico e, poesia e música, voltam a se
irmanar em um patamar muito mais íntimo e lascivo. Deixa-se de buscar formas de
relacionamento entre campos sígnicos diversos e volta-se a considerar, talvez,
como uma retomada do pensamento grego, a palavra enquanto som e o som da
palavra.
A poesia concreta entra em cena e a música concreta também. Nesse motel
suburbano do discurso, a palavra e o som estupram-se mutuamente e extraem um do
outro o que têm de melhor. A palavra é vista pelos músicos como matéria sonora
e os poetas buscam na matéria sonora as lógicas para a escolha das palavras.
Diversas grandes obras musicais - permitam-me restringir-me ao campo da música
para não cometer injustiças – são decorrentes desse período, como a fabulosa Epitaph
fur Aikishi Kuboyama de Herbert Eimert; Visage de Luciano Berio, Omaggio
a Joyce também de Berio: uma das obras na qual mais se abusa da
materialidade textual, integralmente realizada a partir do texto inicial do
capítulo 11 do Ulisses de James Joyce; Blind Man the Barry Truax,
realizada a partir da leitura do poema de mesmo nome feita pelo próprio poeta
Norbert Ruebsaat.
Por fim, chego à obra que gostaria de ressaltar neste pequeno texto: Mortuos
plango, vivos voco de Jonathan Harvey. Essa obra foi composta em 1980 e tem
a sua versão mais conhecida a partir de uma reedição de 1999. Selecionei esta
obra para fazer minha sensível homenagem a esse compositor, falecido no
finalzinho de 2012. Essa obra é uma das pioneiras e mais importantes a ser
realizada em sistemas computacionais com som digital. A despeito da novidade
tecnológica da peça, a relação texto/música é levada a um patamar de forte
radicalismo e beleza. A peça baseia-se na inscrição do sino da catedral de
Winchester na Inglaterra, igreja onde o filho do compositor cantava. A
inscrição diz: Horas Avolantes Numero, Mortuos Plango, Vivos ad preces voco,
que em uma tradução aproximada seria: Eu conto as horas fugazes, eu
choro os mortos, eu invoco os vivos à prece.
Nessa obra, o som do sino da igreja e a voz do filho do compositor
(portadora da materialidade sonoro/textual) se interconectam de uma forma que
supera o que era possível de se imaginar na época. O compositor, com ajuda de
aparatos tecnológicos desenvolvidos para a confecção da obra, propõe a
transmutação gradativa do texto, enquanto matéria sonora, para som de sino e
vice versa, entremeadas por sinos reais que demarcam as seções da obra-texto,
contando o tempo fugaz. Podemos conjecturar que Mortuos Plango, Vivos voco
retorna miticamente ao começo da história narrada neste texto e a supera,
criando uma simbiose muito profunda entre texto e música. É realmente notória a
sensação de corporificação do sujeito desse texto, o sino, a partir do próprio
texto. Não há como descrever com palavras o que o compositor realiza nesta obra
– vale a pena uma escuta atenta da peça – mas é fantástico mergulhar no
universo de um texto que se materializa enquanto sino para representar o
sujeito oculto em sua própria semântica. Tantas interrelações nos levam a
formular a última delas, certamente desagradável, já que escolhi para este
texto, a própria obra para vivo, em prece chorar pelo nobre compositor que,
morto, nos deixou contanto as fugazes horas do viver.

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